A promessa é do presidente da Câmara, Nuno Mascarenhas, em entrevista à Lusa a propósito da aposta do Governo na produção em larga escala de hidrogénio verde (assim chamado porque produzido a partir de fontes renováveis), um tema que será objeto de uma conferência no dia 7, no âmbito da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE).

O responsável começa por dizer que não tem muita informação além da que vem na comunicação social (projetos de produção de hidrogénio verde para exportação que envolvem pelo menos sete mil milhões de euros) mas admite que tem tido “algumas reuniões”.

A questão do hidrogénio verde faz parte de uma estratégia que o Governo português tem de atingir a neutralidade carbónica em 2050, e obviamente é imprescindível diminuir os gases com efeito de estufa, afirma.

“Naturalmente que o hidrogénio tem aqui um papel importantíssimo e nós temos acompanhado, desde que o Governo aprovou a Estratégia Nacional para o Hidrogénio, de perto esta temática. Temos tido contacto por parte de alguns investidores, que pretendem instalar em Sines algumas unidades, mas neste momento não passam de intenções, não temos dados em concreto”.

O hidrogénio verde produz-se fazendo passar energia pela água através de um catalisador e porque essa energia tem de ser de fontes renováveis são precisos muitos painéis solares, estando o presidente ciente de que são necessárias “áreas enormes”.

“Isso é um trabalho que está a ser desenvolvido por vários departamentos do Governo português, em conjunto com as autarquias”, estando envolvida a autarquia de Sines mas também a de Santiago do Cacém, “uma vez que são necessárias grandes áreas”.

Sines, admite Nuno Mascarenhas, não é um município muito grande, pelo que “obviamente” precisa que os municípios “em redor” tenham também muitas dessas centrais fotovoltaicas.

“Existe de facto um trabalho que está a ser feito, coordenado pela secretaria de Estado da Energia, e estamos em crer que dentro de relativamente pouco tempo deve existir novidades relativamente a esta matéria”, diz.

Sines aliás, contou o responsável, tomou medidas para evitar que o concelho fosse submerso por painéis solares, ainda que mesmo assim existam muitas áreas disponíveis, num total de dois mil hectares, que podem ser usados para instalar centrais fotovoltaicas.

Nas energias renováveis o presidente da Câmara diz existirem “em carteira” quase uma dezena de projetos, alguns praticamente aprovados, outros em vias de licenciamento. Mas porque quer mais desenvolvimento para o concelho, ao autarca não lhe bastam centrais fotovoltaicas, diz que os painéis solares devem ser mesmo produzidos em Sines.

“Estamos a falar com várias empresas nesse sentido, e os projetos neste momento que estão em causa são projetos muito interessantes. Alguns de produção de hidrogénio, outros que também produzem amoníaco, e todos eles são importantes para substituir aquilo que foi o encerramento da central termoelétrica”.

Nuno Mascarenhas refere-se ao encerramento, em janeiro passado, da central termoelétrica de Sines. A central que durante anos produziu energia elétrica a partir do carvão e aqueceu a praia de S. Torpes ainda lá está, mas agora parada, em vias de começar a ser desmantelada.

O presidente da Câmara recorda que ficaram no desemprego 400 trabalhadores, 150 diretamente da EDP e 250 da parte dos consórcios que trabalhavam na central. Mas diz acreditar que grande parte dessa mão de obra será absorvida pelo ‘cluster’ do hidrogénio, mas também por outras áreas que vão ser desenvolvidas, seja no incremento do próprio porto de Sines, seja noutros setores.

Sem dar garantias, Nuno Mascarenhas deixa convicções. Sines “atravessa um momento de viragem”, há investimentos a decorrer na área do turismo, na área do digital o cabo submarino que ligará em breve Portugal ao Brasil (entre Fortaleza e Sines) vai permitir instalar por exemplo “alguns ‘data center’”, sem falar do próprio hidrogénio e de indústrias que podem ser agregadas.

Com tudo isto quantos empregos podem ser criados em Sines? ´”É difícil dizer”, afirma Nuno Mascarenhas. E acrescenta logo de seguida: “Mas um projeto único pode criar cerca de 800 a 900 postos de trabalho, não estou a falar de um projeto relacionado com o hidrogénio, falo de outro, mas diz bem da dimensão daquilo que está neste momento em causa e que seguramente nos próximos tempos iremos ter novidades a esse respeito”.

Questionado pela Lusa recusa dizer de que projeto se trata, como também não diz onde se vão localizar os grandes projetos do hidrogénio. No espaço da central termoelétrica? É uma “decisão da EDP”, um dos anunciados grandes investidores, mas Nuno Mascarenhas acredita que pode ser esse o local, até pela proximidade do mar, ainda que na zona industrial haja também “uma capacidade de instalação enorme”.

Mas uma coisa o presidente da Câmara diz saber. É que Sines tem condições “excelentes” para receber todo esse investimento, seja a localização junto ao mar, o porto de águas profundas, a ligação às redes de gás natural ou as unidades industriais que vão também elas consumir hidrogénio.

Da sua parte ele, o investimento, que venha “já amanhã”, que se comece a produzir hidrogénio e que se comece a exportar pelo porto de Sines, que “tem todas as condições para exportar o que quer que seja” para a Europa e para o mundo.

E não o assusta os eventuais riscos associados à produção e armazenamento de hidrogénio, lembra os grandes tanques de gás natural liquefeito, salienta o grande investimento na área da segurança.

Por duas vezes diz acreditar sinceramente que o hidrogénio verde será a tecnologia do futuro e que Sines será o grande polo dessa tecnologia. E depois usa o plural: “Acreditamos que Sines pode continuar a ter um papel muito importante na energia que é produzida em Portugal mas sobretudo naquela que também é exportada”.